O Doador de Memórias - Lois Lowry

25 de abril de 2018

Título: O Doador de Memórias
Autor: Lois Lowry
Páginas: 194
Ano: 2014
Editora: Arqueiro
Gênero: Ficção
Adicione: Skoob
Onde Comprar: Amazon
Nota: 
Sinopse:
Em “O doador de memórias”, a premiada autora Lois Lowry constrói um mundo aparentemente ideal onde não existem dor, desigualdade, guerra nem qualquer tipo de conflito. Por outro lado, também não há amor, desejo ou alegria genuína. Os habitantes de uma pequena comunidade, satisfeitos com a vida ordenada, pacata e estável que levam, conhecem apenas o presente o passado e todas as lembranças do antigo mundo lhes foram apagados da mente. Um único indivíduo é encarregado de ser o guardião dessas memórias, com o objetivo de proteger o povo do sofrimento e, ao mesmo tempo, ter a sabedoria necessária para orientar os dirigentes da sociedade em momentos difíceis. Aos 12 anos, idade em que toda criança é designada à profissão que irá seguir, Jonas recebe a honra de se tornar o próximo guardião. Ele é avisado de que precisará passar por um treinamento difícil, que exigirá coragem, disciplina e muita força, mas não faz ideia de que seu mundo nunca mais será o mesmo. Orientado pelo velho Doador, Jonas descobre pouco a pouco o universo extraordinário que lhe fora roubado. Como uma névoa que vai se dissipando, a terrível realidade por trás daquela utopia começa a se revelar.

Resenha:

Imaginar uma vida sem dor, sem sofrimento, sem a guerra, fome ou morte, imaginar uma vida em que não há desigualdade ou preconceitos é algo que todos fazemos. Mas, e se para isso acontecer, tivéssemos que viver uma vida sem amor, sem alegria, sem cor e sem qualquer tipo de sentimento? Será que estaríamos dispostos? Mergulharmos em uma Mesmice sem fim, onde tudo tudo é sempre a mesma coisa e mudança não é um conceito conhecido. É uma dúvida que mexe lá dentro da gente, ainda mais quando o sofrimento é tão grande que estamos dispostos a sacrificar seu oposto só para deixarmos de nos sentir assim. Mas, nesse caso, temos a escolha de o fazer.

Jonas e sua comunidade não tivera essa escolha. Nasceram nessa Mesmice e para eles essa é a verdade, não conhecem nada diferente nem tem ciência de que um dia tudo fora de outra maneira. Todas as escolhas se foram negadas desde o nascimento e até sua função na sociedade era designada por outras pessoas. E desse jeito, a vida seguia, as pessoas cresciam e eram dispensadas (nunca morriam), os trabalhos eram feitos e tudo funcionava na mais perfeita harmonia. Sem mudança, sem caos, apenas ordem. Todos eram felizes em sua pequenez, mais um número dentre os outros que compunham a comunidade. Formiguinhas sem individualidade nenhuma. 

Essa também era a verdade de Jonas, nos seus 12 anos de idade, ansioso para saber qual seria a função que lhe seria designada pelo Conselho da comunidade. Ele não fazia ideia. Não era igual seus outros amigos que desde crianças tinham aptidão para certas tarefas específicas e passavam as horas de voluntariado exercendo-as. Jonas sempre gostou de experimentar de tudo e fazer um pouco de cada coisa. Esse era o motivo de sua apreensão (para usar a precisão de linguagem). Então quão grande foi sua surpresa quando foi escolhido para ser o novo Recebedor, um cargo que aparentemente era de muita honra e respeito na sociedade, mas que ninguém tinha ideia do que fazia. 

Quando ele começa seu treinamento, descobre que a função de um Recebedor é receber as lembranças do passado do Doador (um cara que também foi um recebedor de outra pessoa, que recebeu antes dele e por ai vai). Desse jeito, depois que concluir seu treinamento e todas as lembranças do Doador se passarem para ele, Jonas vai se tornar o grande “guardião” das lembranças da comunidade. Essas memórias são do mundo inteiro, de todos os tempos que já ficaram para trás. É como se tudo que aconteceu no mundo antes da Mesmice ser instalada fosse sugado da cabeça das pessoas e armazenado apenas em uma cabeça (é a lógica que eu usei para entender). Ninguém lembra de nada que tinha antes, o mundo é sem cor e sem sentimentos. 

À medida que vai recebendo as lembranças, um mundo de novas possibilidades e sensações se abrem na frente de Jonas. Ele descobre o que é sentir o calor do sol, o frio da neve, o que é nadar no mar e principalmente o que é amar. Ele passa a ver as cores ao redor de si e até para de tomar os remédios que servem para cortar os atiçamentos (basicamente os desejos e prazeres). Mas, ao mesmo tempo em que se sente deliciado pelas novas experiências, Jonas também precisa aprender a lidar com a dor. O motivo todo de ter apenas um guardião das memórias é tirar o peso dessas lembranças de sofrimento que a humanidade vivenciou. E todas elas passam para Jonas. Então ele conhece o que é a guerra, a fome e o frio e conhece principalmente a solidão. 

“– O pior de ser quem guarda as lembranças não é a dor que se sente. É a solidão. As lembranças precisam ser partilhadas”

A história se desenrola com o aprendizado de Jonas e os questionamentos que surgem em sua cabeça a respeito daquele jeito tão restritivo de viver. Ele questiona até que ponto é justo que todo o peso da humanidade (e de seus atos) caia em cima de uma só pessoa. Ele se revolta por tudo que lhe foi roubado, tirado de si sem nem mesmo conhecer. Mas ao mesmo tempo, ele ainda está preso pela verdade que sempre lhe foi dita. Uma passagem, em especial, me chamou muito a atenção justamente por causa dessa confusão interna em que ele foi obrigado a viver, escondido.

“- Gostei do sentimento do amor – confessou. Em seguida, olhou rapidamente para o altofalante na parede, nervoso, certificando-se de que ninguém estaria escutando. – Gostaria que ainda tivéssemos isso – murmurou. – Ah, é claro – acrescentou depressa –, concordo que não funcionaria muito bem. E que é muito melhor estarmos organizados do modo como estamos agora. Deu para notar que aquele modo de viver era perigoso”

Acredito que não existe precisão de linguagem que consiga precisar o que esse livro me causou. Quando assisti o filme, fui impactada de uma maneira muito forte e o mesmo aconteceu na leitura do livro. Ele é sutil e extremamente direto, ao mesmo tempo. A autora fez um trabalho muito bom transformando dúvidas tão humanas em uma metáfora. A história não é um exemplo de genialidade nem tem aquela grandeza toda que muitas outras tem, mas ela conversa com a gente de um jeito tão íntimo que fica até difícil descrever. Não costumo muito ficar citando partes do livro, mas como eu disse, são poucas as palavras que conseguem expressar a discussão que tem esse livro.

Jonas: “– Mas por que todo mundo não pode ter as lembranças? Acho que seria um pouco mais fácil se as lembranças fossem partilhadas. O senhor e eu não teríamos de suportar tanta coisa sozinhos se todas as outras pessoas assumissem uma parte disso.”

Isso e transferir a responsabilidade dos nossos atos para outras pessoas. É querer apagar as coisas ruins e suplantar as boas como consequência. É não querer partilhar dos erros e esquecer dos acertos. Sacrificar o bem pelo mal. E por aí vai. A escrita da autora é muito bem feita e ela não se atém à descrições infindáveis de cenário e personagens. Ela constrói o ambiente aos poucos e com leves detalhes. É fato que no filme é mais impactante porque ele começa já em preto e branco e a descrição das lembranças com imagens são mais fortes do que com palavras. Mas o trabalho feito no livro também é muito bom e faz a leitura correr com facilidade.

Por fim, queria ressaltar apenas uma insatisfação que me ocorreu e pode ser que ocorra com qualquer um. No começo, tudo estava parecendo muito Divergente pra mim. Aquela ideia toda de uma sociedade distópica dividida em grupos de pessoas que exercem funções específicas em que uma pessoa está contra o sistema e acaba por causar toda uma reação de mudanças em cadeia. Muito mais do mesmo para mim. Também tem a questão toda do final em aberto. Não sou tão fã deles assim porque sou uma pessoa muito curiosa. A sorte foi que com o desenrolar da história tudo foi mudando e me envolvi mais com o livro. No fim, o que fica é que não podemos mudar o passado, nem esquecê-lo. Precisamos aprender com ele e seguir em frente (muito Rei Leão?), tendo sempre em mente que ele faz parte de quem nós somos hoje. Temos que nos questionar se o peso das escolhas erradas é maior, quando sabemos que temos a capacidade de fazê-las. E o mais importante: precisamos partilhar nossas lembranças, é um fardo muito grande guardá-las só para nós.

5 comentários

  1. Acabei vendo o filme primeiro e só depois de muito tempo, li o livro. Talvez isso tenha sido bom, afinal quando pude conferir o livro, já tinha meio que apagado as lembranças do filme. Não, o filme não é ruim de forma alguma, pelo contrário. Só que no livro, as viagens que a gente faz com a mente são fantásticas e para mim, os rostos eram muito diferentes.
    É um livro e um filme super indicados!!
    Beijo

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  2. adorei o post!!
    beijinhos

    |último post|
    http://eyeelement.blogspot.pt/2018/04/4-ootd-do-instagram.html

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  3. Olá!
    Eu ainda não li o livro e nem vi o filme, mas confesso que qdo conheci o livro estava bastante empolgada em ler, agora deu uma decaída, mas assim até que é bom assim não vou com tanta sede ao pote, espero conseguir me segurar pra não ver o filme antes de ler.
    Bjs!

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  4. Oi,
    Também fui bem impactada tanto pelo filme, quanto pela leitura, principalmente pelos questionamentos que fazemos a nós mesmos enquanto estamos envolvidos com o conteúdo. Teve várias passagens que me chamaram atenção, lembro de uma em que o doador deixava claro que para existir os bons sentimentos, os ruins também precisavam estar lá e não era algo que conseguiram lidar.
    Enfim, uma bela crítica, uma bela discussão, eu gostei bem mais do que qualquer outra distopia que já li. Sobre o final, sei que se trata de uma série, mas pelo que entendi as histórias só irão se ligar no último livro, o jeito é segurar a curiosidade e ler, rs.
    Beijos

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  5. Oi Maíra.
    Eu li o livro e achei ok. Acho que o final em aberto foi a escolha mais fácil para o autor. Não tenho problemas com esse tipo de final, mas nessa história eu queria que houvesse um final sem ser aberto.
    Vi o filme também e achei ok. Acredito que foi uma boa adaptação do livro.
    Beijos

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